sábado, 14 de novembro de 2009

POETA

POETA



O garoto chegou todo afobado da escola. Tinha uma tarefa para resolver. O colégio estava a uma distância de meia hora à pé da casa do menino que mora de frente para o amazonas. O sol quase à pino, mas o vento que vinha do rio diminuía a quentura. Apesar do cansaço da caminhada, o menino não se esqueceu da pesquisa que precisava fazer, embora desconfiasse que os livros que possui em casa não seriam suficientes para ajudá-lo. Mal chegavam a uma dúzia, livros didáticos, nenhum com perfil literário. Aliás, os livros da escola do garoto quase não contavam as histórias que sua mãe lhe contava, nem os casos que seu pai muito bem conhecia. As histórias dos livros da escola contavam coisas que aconteciam longe de onde ele mora. Onde encontraria uma poesia que falasse sobre a região? A tarefa que a professora pediu. Tinha a impressão que não conseguiria fazer o trabalho da escola. O garoto foi aos poucos livros. Folheou alguns que poderiam ajudá-lo. Os poucos livros que havia em casa não mostravam poesia sobre a região. Será que na região não existiam poetas com valor suficiente para merecerem publicação de suas poesias no livro da escola? Poesias do livro não falam da beleza e da grandiosidade dos rios da Amazônia e suas histórias, das riquezas da florestas.
A mãe chamou o menino para perto da mesa e serviu o almoço. Peixe assado, escama amarela, sabrecada, cheiro de dar água na boca. Peixe escolhido e amassado com a mão. Uma poesia digna de estar em livro da escola. O menino descobriria que também existe no livro um pouco de sua vida. Coisa boa peixe assado.
Depois o menino no jirau lavou as mãos e o rosto. Foi para varanda onde o pai estava a tecer uma malhadeira. Trançava o fio com a agulha, filava o nó, pegava outra malha, passava a agulha por entre os fios e rapidamente ferrava mais um nó. E mais uma carreira estava feita. Soltava as malhas de junto da palheta e iniciava outra sequência. Repetia por horas seguidas o mesmo processo.
O menino veio até o pai, pois ele sabia muita coisa. O pai devia conhecer poesia amazônica, ele sabia tudo sobre a história de todos os moradores do lugar. Saber poesia devia ser fácil.
Enquanto o pai tecia, o menino contou:
_ A professora pediu que pesquisassemos sobre poesia amazônica. Eu não consegui encontrar nos livros algo que fale da nossa região, por quê?
Sem desviar a atenção da linha e da agulha o homem explicou:
_ Esses livros vem do sul e quem escreve os livros não vão deixar de falar das coisas deles para homenagear outros. É por isso que você não encontrou no livro muito sobre a amazônia.
_ Mas não é um mesmo país? Devia falar de todas os lugares.
_ É verdade.
O pai fez uma pausa que na linguagem ribeirinha quer dizer muita coisa e na qual ensaiou um protesto contra os responsáveis pela escolha dos livros. E procurando encontrar na memória algo que pudesse ajudar o filho na tarefa, continuou:
_ Poesia eu não sei nenhuma de cabeça, mas eu conheci um poeta. Ele compôs uma música das mais conhecidas e reconhecidas como legítima obra amazônica: Pauapixuna.
_ E quem é o poeta?
_ É Rui Barata. E esta música foi gravada pela primeira vez por uma cantora chamada Fafá de Belém.
_ Mas Pauapixuna tem algo a ver com aquele lugar na beira do Amazonas na costa de Óbidos?
_ Vê só como é a história. Quando o poeta compôs a música, toda a costa de Óbidos era conhecida por esse nome. E ele prestou a melhor homenagem à essa região.
_ Ele andava pelo interior?
_ Sim e essa ligação com a região começou muito antes de o poeta nascer. O pai era advogado e dos mais competentes. Ele se mudou para a cidade e montou escritório em Óbidos, quando advogou uma questão para Abílio, meu pai, que morava na costa de baixo, é que iniciou a amizade. Alarico, o pai de Rui, gostava de Abílio por ele ser conversador e por ter muito conhecimento. As pessoas da costa de Óbidos Abílio conhecia todas. O rio ele conhecia cada remanso, desde o tapajós até o Solimões onde ia à remo buscar os cedros que caiam no rio e eram trazidos pela água, e baixava com as toras em uma jangada manobrada por canoa. Conhecia povoados e cidades. Serviu o exército dois anos no Forte de Copacabana no Rio de Janeiro e Abílio se dava com todo mundo. Alarico convidava Abílio para pernoitar em sua casa, quando viajasse para a cidade. O advogado recebia muito trabalho para datilografar era preciso manter-se desperto até tardes horas da noite e necessitava de alguém com quem conversar para espantar o sono. E Abílio quando começava a conversar emendava de uma história para outra. Alarico conversava enquanto datilografava e não perdia o assunto. Raras vezes olhava para o teclado da máquina. Tinha cada letra de cor. Escrevia muitas laudas à noite. E uma vez Alarico conversando sobre o filho, contou que ele nascera à bordo de um vapor chamado Paranatinga. Nasceu sobre as águas, enquanto o navio subia o rio em uma viagem de Belém para Óbidos. O filho foi registrado em Santarém, o primeiro porto onde o Paranatinga atracou. Dizem que o poeta é santareno, mas na verdade ele é ribeirinho. Eu acho que todo cartório devia aceitar a naturalidade: ribeirinho, a todos que nascessem junto ao rio Amazonas. Rui foi estudar fora, com o tempo entrou na política como candidato a deputado estadual. Através de Alarico o poeta conheceu Abílio. O poeta visitava a casa de Abílio na costa de baixo, pois ele era um forte cabo eleitoral na região. Eram tantas conversas e o poeta sentava no batente da porta da cozinha, uma perna repousada na escada e outra para a parte do assoalho. Na casa de Abílio era feito o “rancho” no dia da eleição, quer dizer, os comes e bebes ofertado aos eleitores. Rui ensinava o pessoal da família a trabalharem a seu favor na eleição. Entregava os santinhos e dizia:
_ Vocês perguntem em quem eles vão votar. Na hora que eles mostrarem as cédulas dos candidatos vocês peguem e fazem que vão olhar, se não for o meu material, troquem. Vocês já devolvem a minha cédula dobrada no meio para ninguém desconfiar da troca. Na hora de votar o pessoal vai puxar do bolso o papel e encontrar o meu número.
E assim eles faziam.
Foi nessas viagens de campanha eleitoral que o poeta conheceu a filha de Liberalino Cardoso e passou a namorar com ela. Em uma tarde o poeta começou a escrever a letra de Pauapixuna, deitado em uma rede atada embaixo de uma árvore próxima ao terreiro da casa da namorada. Ele mesmo contou para Ábilio que naquele final de dia enversou tudo o que a música conta conforme ia acontecendo.
_ O poeta casou, então, com essa namorada?
_ Não casou porque antes disso teve um acontecimento que, sabe Deus, mudou o destino dos dois. Se eles iam ficar juntos ninguém sabe. Somente Deus é que conhece a sorte de cada um. Rui precisava viajar por toda região. E as visitas tornaram-se menos frequêntes.
Um dia a namorada recebeu uma carta, mas no papel não estava escrito uma declaração de amor, nem uma poesia ou letra de música, era a carta de uma rival, continha muitas desfeitas, Junto com a carta tinha sete pedaços de papel cortados em quadrado. No final a carta arrematava:
“Com sete dias uma surpresa te aguarda”.
A namorada do poeta leu a carta. Contou para a família. Pensava ela que a mulher que mandou a carta viria nesse meio tempo brigar com ela, algo assim. E esperou que a rival aparecesse. Passaram os dias. Ninguém apareceu. Na madrugada do sétimo dia a namorada acordou com uma dor. A morte veio visitá-la. Amanheceu morta.
_ É triste, não pai!
_ Pois é! Tem gente que duvida, mas todos os familiares confirmaram que foi assim. Depois do falecimento é que lembraram que ela havia recebido uma carta. Escarafuncharam os objetos pessoais e encontraram o envelope junto de uns papéis.
_ Mas eu preciso levar para a escola uma poesia sobre a região. O que eu faço?
_ Escreve isso que eu falei. Vai dar uma boa história.
E assim, em pouco tempo o garoto tinha pronto a tarefa escolar, a qual levou para apresentar na escola. Recebeu muitos elogios, pois apresentou um dos melhores trabalhos do ano.

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